terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Literatura e Sociedade de Antônio Cândido

Parte I - Crítica e Sociologia
O livro permite focalizar os vários níveis da correlação entre literatura e sociedade com estudos de histórias literárias e estudos sobre aspectos sociais envolvidos no processo literário.
No 1º capítulo “Crítica e Sociologia” a idéia de que a relação entre ficção e realidade, obra e sociedade já foi aceita e depois renegada. Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas e sim, fundindo texto e contexto, o social possui significado para a estrutura da obra. Indaga-se: o fator social fornece a matéria literária ou apenas contribui?
O autor exemplifica afirmando que a compra do marido no romance Senhora de José de Alencar é uma crítica aos costumes da época, ao casamento por dinheiro, ao desnudar as raízes da relação, o autor faz uma análise socialmente radical reduzindo o ato ao seu aspecto essencial de compra e venda.
“Quando fazemos uma análise desse tipo, podemos dizer que levamos em conta o elemento social, não exteriormente, como referência que permite identificar, na matéria do livro; mas como fator da própria construção artística, estudado no nível explicativo e não ilustrativo.”
Hoje a crítica superou a idéia de tudo explicar por meio do social, mas não abandonou a orientação sociológica. Há, hoje, uma preocupação do estudioso em não enxergar na aceitação da relação entre os elementos internos da obra (traço) e os históricos (contexto) de fato
Silvio Romero tentou discernir uma ordem geral para entender as seqüências históricas e traçar o panorama das épocas relacionando o conjunto de uma literatura, um período, um gênero, com as condições sociais. O seu defeito está na dificuldade de mostrar a ligação entre as condições sociais e as obras.
Estudos desse tipo incorrem em erros: a interpretação de obras e escritores isolados são apenas pretextos para apontar aspectos e problemas sociais e cita o caso de Heitor Ferreira Lima sobre Castro Alves.
Outro erro seria uma abordagem sociológica elementar, consistindo basicamente em estabelecer correlações entre os aspectos reais e os que aparecem no livro.
Um terceiro erro é apenas sociologia: estudo da relação entre obra e público, o seu destino, a sua aceitação, a ação recíproca de ambos.
Um quarto tipo é o que estuda a posição e a função social do escritor numa correlação entre escritor, obra e organização da sociedade.
Desdobramento do anterior é o quinto tipo que investiga a função política das obras e dos autores, em geral com intuito ideológico marcado e tem tido a preferência dos marxistas.
Finalmente o sexto tipo voltado para a investigação hipotética das origens da literatura em geral ou de determinados gêneros.
O autor reconhece que “todas essas modalidades e suas numerosas variantes são legítimas e, quando bem conduzidas, fecundas, na medida em que as tomarmos, não como crítica, mas como teoria e história sociológica da literatura.”
Mas daí, determinar que os vários fatores sociais “interferem diretamente nas características essenciais de determinada obra, vai um abismo, nem sempre transposto com felicidade”
Averiguar se o fato é decisivo ou apenas aproveitável para entender as obras particulares e não negar ou afirmar uma dimensão evidente do fato literário. Para exemplificar, o autor cita o fato de Aluízio Azevedo, durante a composição de O homem, ter consultado seu amigo e médico Fernandes Figueira sobre o envenenamento por estricnina; mas na obra, não seguiu as informações recebidas, desrespeitou os dados da ciência e deu ao veneno a ação mais rápida e mais dramática, porque necessitava que assim fosse para o seu designo.
A criação decorre, pois de uma certa visão do mundo e aí o autor cita vários exemplos de autores e obras. Entender os critérios para analisar os fatores internos e externos de uma obra. A crítica determinista, muito criticada hoje, anulava a individualidade da obra, interrogando numa visão demasiado ampla e genérica dos elementos sociais. Hoje, ainda num estado insatisfatório em que achamos, pois há certos exageros: afirmam que a obra é um todo que se explica a si mesmo e, portanto, inviável no trabalho prático de interpretar, despreza a dimensão histórica, não consideram os problemas que preocupam a contemporaneidade, mas recebeu das correntes modernas instrumentos de investigação e terminologia adequada, e às suas diversas modalidades devemos resultados como o referido conceito de organicidade da obra.

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