sábado, 13 de dezembro de 2008

Um ensaio sobre a dúvida

Na foto a atriz Letícia Persiles

.. . . . Adaptada da obra-prima de Machado de Assis, Dom Casmurro, a minissérie Capitu foi dirigida pelo diretor-cineasta Luiz Fernando Carvalho formado em Letras e Arquitetura que dirigiu também a minissérie “Os Maias”, do livro de Eça de Queiroz. Ainda na televisão criou, escreveu e dirigiu as duas jornadas de “Hoje É Dia de Maria”, inspirada em contos da oralidade popular brasileira, e a série “A Pedra do Reino”, do romance de Ariano Suassuna. Chegou a fazer outros trabalhos não menos importantes que esses mas que não irei citar apesar de sabê-los.
. . . . O livro Dom Casmurro trata do amor entre Bentinho - que narra a história - e Capitu - que é o contraste entre uma princesa delicada e um espírito de cigana arisca-dissimulada - marcado pelo ciúmes incontrolável de Bento que fulmina na destruição deste amor nascido desde a infância. A minissérie seguiu o mesmo enredo da obra. Isso fica claro quando dividiu-se cada capítulo da minissérie em vários outros capítulos correspondentes aos do livro. Teve-se o cuidado de manter intacto grande parte do texto original bem como todos os nomes dos capítulos que foram colocados na minissérie. Para que isso fosse possível a minissérie acabou tendo que ser bastante densa e cheia de minuciosos detalhes. Detalhes que são importantíssimos para o real entendimento da essência da obra o que acabou por selecionar o público-alvo que os produtores da minissérie desejavam: no caso pessoas que tenham lido de fato a obra. O resultado disto foi optar por limitar-se em criar uma nova obra de arte que fizesse uma releitura da obra original, respeitando, na medida do possível, todo o texto original em vez de fazer um produto que seria mais uma forma de banalização de uma obra que é no mínimo brilhante. Digo ‘na medida do possível’ porque a proposta da minissérie não era fazer uma simples cópia da obra, mas sim fazer, a partir desta, uma nova, em que não diria que igualou-se a original mas tornou-se única como tal (atrevo-me a dizer). Uma arte que surge de outra e assim que completa torna-se um todo único e independente.
. . . . Capitu (minisséire) apresenta uma quantidade exorbitantemente grande de elementos orgânicos, como projeções, sombras (representam as próprias emoções reviradas, tão intensas que fazem tremer todo o corpo de Bentinho) e texturas, que ajudaram a trazer para a tela a sensação de história constituída de lembranças - a mente perturbada de Bentinho. Foi o figurino que ligou os personagens ao século XIX, levando para as roupas o mesmo tom provocativo do texto de Machado de Assis. A técnica de improvisação (os figurantes eram desenhos de papelão e o cavalo de Tio Cosmo uma espécie de estrutura metálica com uma cabeça de cavalo) permeia todo o processo criativo, como uma obra de arte está sendo pintada no momento em que a cena acontece. Técnica esta que utiliza alguns dos recursos do teatro em que temos apenas um cenário constantemente modificado para nos passar a idéia de mudança de local em que se passa a história. Não existe exatamente uma distinção entre o passado e o presente para que a tendência imaginativa que Bentinho possuía fique explícita, o que é indispensável para por em evidência o possível (e provável) engano do narrador quanto ao adultério de Capitu. O cenário minimalista repleto de objetos antigos (provavelmente conseguidos em antiquários) não possuía paredes. A presença de jornais como matéria prima em vários momentos dentro da minissérie nos remete ao ato de escrever e até ao próprio Machado de Assis que foi jornalista. Não posso me esquecer de mencionar a sonoplastia que misturou rock com música clássica fazendo jus a toda minissérie e a mente do Bentinho que costuma se perder no tempo-espaço.
. . . . É claro que toda essa super produção tão cheia de recursos riquíssimos (até uma lente especial cheia d’água foi feita para filmar as cenas do narrador) teria sido em vão se não fosse pelas atuações e interpretações dos atores que participaram da minissérie. Todos têm a minha saudosa e humilde aprovação (conseguiram me passar as sensações que tive nas três vezes que li a obra) e sinto dizer que me surpreendi com a minissérie (particularmente esperava bem menos).

3 comentários:

  1. Realmente a minissérie ficou muito boa. Eu curti bastante, gosto muito de Machado de Assis apesar de só ter lido três das centenas e obras dele.

    Agora se a minisséria foi fiel ao livro ou não, isso eu não posso dizer pois já faz abstante tempo que li o livro e não poderia lembrar dos detelhes.

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  2. Eu não li o livro e não cheguei a ver todos os capítulos mas eu gostei muito do pouco que eu vi. A trilha sonora era mesmo muito boa.

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